Two Poems from Portugal

July 20, 2016
Esther Schwarz, “Lush (66/365),” 2009. For more of Schwarz’s photos, visit Inside My Shell.
Esther Schwarz, “Lush (66/365),” 2009. For more of Schwarz’s photos, visit Inside My Shell.

 

Tangerinas de Natal

«Será que eles ainda fazem?» É
domingo
para segunda. Resolves
a teu favor a
última tangerina e devolves a pergunta:
«Os meus ou
os teus?» E eu sorrio. Há quem os
queira exprovados quase
que imaculados
mesmo sabendo-nos prova de
que tiveram de fazer para
agora aqui estarmos
negociando imperfeições.
«Deixei-te ficar na dúvida.»
«Lembras-te de cada coisa . . . »
Atalhas-me com o
gomo perfeito mas
eu quero mais de ti
«Estás a ficar com sono.»
«Continua.» 

 

Christmas tangerines 

“Do they really still do it?” It’s
Sunday
going on Monday. You take it
upon yourself to have the
last tangerine and return the question:
“Mine or
yours?” And I smile. There are those
who want them pristine almost
immaculate
even knowing ourselves to be proof
of them having done it for
us to be here now
debating imperfections.
“I left you wondering”
“The things you think about . . .”
You cut me short with the
perfect wedge but
I want more from you
“You are getting tired.”
“Keep going.”

 

A mesma chuva de sempre

Voltamos a casa tarde
(a cama:
já por fazer)
o lençol afeiçoado àquele
vinco da manhã e
percebo pela imagem como assentimos a pressa
como
o dia é uma partida com a meia cinzenta rota
no dedo grande do pé. Eu e
o cadeirão de madeira gastamos o
mesmo número de ombros
(hoje usou o dia inteiro a
minha camisa aos quadrados).
O fim de tarde repousa em vasilhas
junto à entrada no
canto da sala onde fomos deixando apinhoar o
monte de jornais antigos com recortes por fazer
(na nódoa que
assentimos: passasse a ser parte integrante
do padrão do sofá)
no cabelo que imolaste ao
meu lado do lençol testemunhando que ontem
ontem sim
ontem sim. A
felicidade entra em casa em sacos de hipermercado –
está de volta o estranhamento de
fugaz tranquilidade por
sabermos que o ruído que insiste sobre o telhado
não
é o céu a partir
(não são anjos a chorar)
mas apenas os acordes da
mesma
chuva de sempre.

 

The same rain again 

We come home late
(the bed:
still unmade)
the sheets endeared to that
morning’s crease and
the mark brings to mind how we assented to the rush
how
the day is the starting line with a gray sock pierced
by the big toe. Me and
the wide wooden chair
sport the same measurements
(all day long today it wore
my checkered shirt). The
end of the day rests in baskets
by the entryway in the
corner of the room where we left piling up
stacks of old newspapers with clippings to be made
(in the stain to which
we acquiesced: having become an integral part
of the sofa pattern)
in the hair you cast onto
my side of the sheets testifying that yesterday
yesterday yes
yesterday yes.
Happiness comes home in grocery bags –
it returns the estrangement of
fleeting tranquility from
knowing that the noise persisting on the roof
is not
the sky falling
(nor angels crying)
but simply the chords of the
same
rain again.

Translations from the Portuguese
By Annalisa Nash Fernandez

João Luís Barreto Guimarães was born in Porto, Portugal, in June 1967. He is a poet and a plastic reconstructive surgeon. His first seven books of poetry were collected in Poesia Reunida (Quetzal, 2011), followed by Você Está Aqui (Quetzal, 2013) and Mediterrâneo (Quetzal, 2016).

Annalisa Nash Fernandez is a recent graduate of the University of Wisconsin–Milwaukee’s MA in Language, Literature, and Translation program and lives in Connecticut.

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